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Novas diretrizes para diabetes incluem tratamento da obesidade

Sociedade Brasileira de Diabetes atualiza recomendações para o tratamento do diabetes tipo 2 e reforça cuidados com peso, coração e rins.

Novas diretrizes para diabetes incluem tratamento da obesidade
Foto: Ilustração

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) atualizou as diretrizes para o tratamento clínico do diabetes no Brasil. Entre as principais mudanças está a recomendação de que pacientes com diabetes tipo 2 também tenham a obesidade tratada de forma conjunta com a doença, ampliando o foco do acompanhamento para além do controle da glicemia.

Até então, o tratamento específico da obesidade era considerado uma possibilidade no acompanhamento de pessoas com diabetes tipo 2. Com as novas orientações, o controle do peso passa a integrar de maneira mais direta a estratégia de prevenção de complicações relacionadas à doença.

“Saímos do foco de apenas controlar a glicose para também olharmos para o controle do peso e riscos para os rins e coração”, explicou Marcello Bertoluci, coordenador de Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Segundo o especialista, além da adoção de hábitos de vida saudáveis, medicamentos podem ser indicados para auxiliar no controle do diabetes e da obesidade e, consequentemente, reduzir riscos de complicações cardiovasculares e renais.

>Medicamentos também podem ser utilizados Entre as opções terapêuticas estão os medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, que incluem princípios ativos presentes em medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

De acordo com Bertoluci, esses medicamentos podem ter papel importante inclusive em fases anteriores ao diagnóstico do diabetes tipo 2, especialmente quando o paciente apresenta sobrepeso ou alterações metabólicas.

“Quando o paciente começa a ter sobrepeso, ou quando já há alterações metabólicas, mesmo antes de apresentar diabetes tipo 2, há estudos mostrando que esses medicamentos são muito úteis para a remissão do quadro, protegem contra a progressão da doença renal e reduzem a incidência de infarto”, afirmou.

O médico ressalta, porém, que o combate ao excesso de gordura corporal deve ser encarado como um cuidado contínuo.

Nos casos em que o diabetes já apresenta complicações mais avançadas, atingindo órgãos como coração e rins, outros medicamentos podem ser associados ao tratamento. Entre eles estão os inibidores do SGLT2, utilizados também com o objetivo de proteger esses órgãos e retardar a progressão da doença.

Diabetes pode afetar diferentes órgãos

O diabetes é uma condição crônica caracterizada pela resistência à ação da insulina associada a diferentes graus de deficiência na produção desse hormônio pelo pâncreas.

Entre os órgãos e sistemas que podem ser afetados estão os rins, pâncreas, artérias coronárias e cerebrais, fígado e coração.

As complicações podem incluir insuficiência cardíaca, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), perda da função renal e progressão do diabetes tipo 2, podendo levar à necessidade de tratamento com insulina.

O controle da glicemia e de outros fatores de risco é considerado fundamental para reduzir a possibilidade de complicações. Entre os principais fatores associados estão obesidade, hipertensão arterial e colesterol elevado.

Diabetes atinge milhões de brasileiros

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes afeta cerca de 14% da população adulta mundial, o equivalente a aproximadamente 828 milhões de pessoas.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que 12,9% dos adultos receberam diagnóstico de diabetes. O percentual corresponde a cerca de 19,9 milhões de pessoas, considerando os números do Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados mais recentes do Vigitel, referentes a 2024, também apontam prevalência de 12,9% entre os adultos brasileiros. O índice representa um crescimento de 134,5% em comparação com 2006, quando 5,5% dos adultos entrevistados declaravam ter diagnóstico de diabetes.

Diferenças entre os tipos 1 e 2

Os tipos mais comuns de diabetes são o tipo 1 e o tipo 2.

No diabetes tipo 1, uma doença autoimune faz com que o sistema imunológico ataque as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Como consequência, ocorre uma deficiência grave do hormônio, tornando o uso de insulina essencial para o tratamento.

Já no diabetes tipo 2 existe uma combinação de fatores genéticos e metabólicos, com destaque para a obesidade, que contribui para a resistência à ação da insulina. Com o passar do tempo, também pode ocorrer redução progressiva da produção do hormônio.

Embora tenham características diferentes, ambos os tipos de diabetes podem provocar complicações crônicas. O controle da glicemia e dos fatores de risco é uma das principais estratégias para reduzir esses problemas.

Novas recomendações também envolvem gestantes

As novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes também trazem recomendações específicas para mulheres com diabetes que pretendem engravidar.

Uma das orientações envolve mulheres com hemoglobina glicada acima de 9% que estejam em idade fértil e possam engravidar. Nesses casos, a recomendação é que sejam aconselhadas a postergar a gestação até que o controle glicêmico seja melhorado.

Segundo Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD, a hiperglicemia durante a gravidez está associada a riscos para a mãe e o bebê.

“É claro que a decisão de ter um filho é da mulher, mas aquelas que tiverem uma hemoglobina glicada acima de nove e que estão na possibilidade de engravidar, devem ser aconselhadas a não engravidar pelo aumento significativo do risco de malformações e outras complicações gestacionais”, afirmou.

A recomendação é que, nesses casos, a gestação seja planejada para um momento em que a hemoglobina glicada esteja abaixo de 6%, sempre com acompanhamento médico.

Segundo a especialista, aproximadamente um em cada seis nascidos vivos é filho de uma mãe que apresentou hiperglicemia durante a gravidez.

Sistemas automatizados de insulina

Outra mudança destacada nas diretrizes envolve mulheres com diabetes tipo 1 que ainda não estão grávidas e apresentam dificuldades para manter o controle adequado da glicemia.

Para essas pacientes, a recomendação é considerar o uso de sistemas automatizados de infusão de insulina antes da gestação.

“Temos evidências de que o uso de sistemas automatizados pré-gestacional melhora o desfecho da gestação por melhorar o controle glicêmico”, afirmou Zajdenverg.

A intenção é que o controle da glicemia seja otimizado antes da gravidez, reduzindo riscos durante a gestação.

Agonistas de GLP-1 devem ser substituídos antes da gravidez

As novas recomendações também fazem um alerta para mulheres com diabetes tipo 2 que utilizam medicamentos agonistas do GLP-1 e pretendem engravidar.

Segundo a SBD, essas pacientes devem conversar com o médico para substituir o medicamento antes da gestação por uma alternativa considerada segura durante esse período.

“Existem estudos observacionais que mostram que o uso do agonista no primeiro trimestre da gravidez não aumentou risco de malformações, entretanto são medicamentos que ainda não estão autorizados para uso na gestação e devem ser substituídos por medicamentos seguros que, no caso, na gravidez, é a insulina”, explicou a médica.

As novas diretrizes reforçam, assim, uma abordagem mais ampla do diabetes, que considera não apenas os níveis de glicose no sangue, mas também o controle do peso e a proteção de órgãos como coração e rins, além do planejamento adequado da gravidez para mulheres com diabetes.

FonteO Globo
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